Existe na terra um sistema divinatório que atravessou cinco milênios sem perder nem seu rigor nem sua relevância. Chama-se Fá. Vem do Benin. E seu centro mundial é Ouidah.
A UNESCO o inscreveu no Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2008 sob o nome de “Sistema de Adivinhação Ifá”. Mas essa inscrição oficial diz apenas uma fração do que o Fá representa para os 50 milhões de pessoas que, em quatro continentes, continuam a consultá-lo para orientar suas decisões mais cruciais.
No Haiti, ele se torna o Vodou. No Brasil, o Candomblé. Em Cuba, a Santería. Na Nigéria e no Benin, permanece o Fá ou o Ifá em sua forma mais antiga, mais completa, menos alterada. E os grandes Bokonons, os mestres do Fá, que detêm suas chaves mais profundas, vivem em Ouidah.
O que o Fá não é
Antes de compreender o que é o Fá, é preciso desfazer o que ele não é. O Fá não é “magia”. Não é “superstição”. Não é o equivalente africano da vidência ocidental ou do tarô.
O Fá é um sistema algorítmico binário. Sua estrutura repousa sobre 256 configurações distintas, os Odus, cada uma correspondendo a um corpus de textos sagrados, prescrições e leituras do real. Os matemáticos que o estudaram no século XX reconheceram em sua arquitetura uma lógica binária análoga à que fundamenta a informática moderna. Gottfried Wilhelm Leibniz, ao descobrir o princípio do binário no século XVII, teria trocado correspondências com missionários vindos da África. O paralelo nunca foi provado, mas também nunca foi refutado.
O que o Fá realiza, em sua prática, é uma leitura do complexo emaranhado de forças, energias ancestrais, contexto social, predisposições individuais, que determinam as probabilidades de desfecho de qualquer situação humana. O Bokonon não adivinha o futuro. Ele lê as condições do presente para identificar as trajetórias mais prováveis e as correções mais eficazes.
Por que Ouidah é o centro mundial do Fá
Ouidah não é simplesmente uma cidade beninense. É o ponto de convergência histórica de várias tradições espirituais africanas, Vodun, Fá, Legba, Zangbeto, que atingiram todas sua forma mais desenvolvida, mais institucionalizada nessa cidade costeira do golfo da Guiné.
DAAGBO HOUNON HOUNA I, Pontífice Supremo do Vodun radicado em Ouidah, é o guardião da tradição mais elevada. Em sua linhagem, os mestres Bokonons que formaram gerações de praticantes jamais romperam a cadeia de transmissão. Ao contrário de outras tradições dispersas pelo tráfico negreiro e reconstituídas na diáspora, a tradição de Ouidah está intacta, não reconstituída, original.
É esse caráter de integridade que atrai pesquisadores, praticantes e membros da diáspora de cinquenta países todos os anos. Eles vêm a Ouidah não para visitar uma tradição, mas para reencontrá-la em seu estado vivo, não musealizado.
A consulta do Fá: o que realmente acontece
No âmbito do After Vodundays, alguns participantes têm acesso a uma consulta do Fá com um Bokonon credenciado de Ouidah. Não se trata de uma demonstração turística nem de uma encenação. É uma consulta real, conduzida segundo os protocolos da tradição, com intérprete para os participantes francófonos e anglófonos.
O Bokonon começa identificando o signo Odu que rege a pergunta feita. Em seguida mobiliza o corpus de textos correspondente, centenas de relatos e prescrições memorizados após anos de iniciação. A consulta pode durar entre 45 minutos e várias horas, conforme a complexidade da situação.
Os participantes que vivenciaram essa experiência relatam unanimemente a mesma coisa: uma precisão perturbadora na leitura de sua situação, sem que nenhuma informação tenha sido dada previamente ao Bokonon, e uma consulta que muda duradouramente sua maneira de ver sua própria trajetória.
O impacto também é comunitário e concreto: cada consulta remunera diretamente o Bokonon credenciado segundo as tarifas da tradição, não uma comissão repassada a uma agência. 65% da receita gerada pelo After Vodundays permanece nas comunidades de Ouidah. Ao longo das 6 edições organizadas até hoje, mais de 10 milhões de FCFA por edição circularam diretamente nas mãos dos guardiões, das famílias anfitriãs e dos artesãos locais.
O Fá e a diáspora: uma reconciliação em curso
Para a diáspora africana mundial, haitiana, brasileira, cubana, americana, o Fá representa algo particular. Foram os ancestrais dessas comunidades que atravessaram o Atlântico levando consigo fragmentos dessa tradição. Esses fragmentos sobreviveram sob formas alteradas: o Vodou haitiano, o Candomblé brasileiro, a Santería cubana.
Voltar a Ouidah para acessar o Fá em sua forma integral é completar algo que foi rompido há quatro séculos. É reencontrar a fonte, não a cópia, não a reconstrução, mas a tradição viva que jamais foi interrompida.
Vários participantes do After Vodundays de origem haitiana ou brasileira descrevem sua consulta do Fá como “o momento em que algo se fechou dentro de mim”. Uma reconciliação que nem a terapia, nem a viagem convencional, nem nenhuma outra experiência havia conseguido realizar.
Acessar o Fá durante sua passagem por Ouidah.
A consulta do Fá está disponível no âmbito do programa After Vodundays. As vagas são limitadas, cada consulta é individual, conduzida por um Bokonon credenciado.