Todo ano, eles chegam. De Porto Príncipe, de Atlanta, de São Paulo, de Paris, de Lagos, de Londres. Chegam a Ouidah com algo no olhar que se parece com expectativa, às vezes apreensão. E partem diferentes.
O fenômeno está documentado ao longo de várias edições do After Vodundays. Os participantes vindos da diáspora africana mundial, haitiana, brasileira, cubana, americana, antilhana, europeia, não vivem Ouidah como uma viagem. Vivem-na como um retorno.
Um retorno a algo cuja existência precisa muitas vezes ignoravam, mas cuja ausência se fazia sentir a vida toda sob múltiplas formas: uma identidade fragmentada, um pertencimento incompleto, uma espiritualidade buscada sem jamais encontrar sua fonte.
Ouidah não é um destino. É uma origem.
Entre os séculos XVI e XIX, Ouidah foi o principal porto de partida do tráfico transatlântico do Benin. Mais de 400.000 africanos embarcaram de suas praias rumo ao Haiti, ao Brasil, a Cuba, ao Caribe, aos Estados Unidos. Seus descendentes, milhões de homens e mulheres hoje, carregam em seu DNA cultural, e às vezes genético, um vínculo com essa terra.
Esse vínculo não é sentimental. É estrutural. As práticas espirituais do Vodou haitiano, do Candomblé brasileiro, da Santería cubana são sobrevivências diretas da tradição Vodun de Ouidah, transformadas pela adaptação forçada à escravidão, mas reconhecíveis em sua estrutura profunda.
Quando um participante haitiano chega a Ouidah e assiste pela primeira vez a uma cerimônia Vodun em seu contexto de origem, algo acontece que não tem nome no vocabulário do turismo cultural comum. Ele vê a fonte daquilo que sua avó lhe transmitiu sem saber de onde vinha.
O que os psicólogos nomeiam, Ouidah cura
A pesquisa em psicologia intercultural documenta desde os anos 1990 um fenômeno que chama de “luto identitário diaspórico”: a perda, ao longo de várias gerações, dos marcadores culturais fundamentais, língua, espiritualidade, pertencimento territorial, que estruturam a identidade.
Esse luto, muitas vezes inconsciente, se manifesta como uma forma de inadequação persistente, na sociedade de acolhimento, onde o indivíduo nunca se sente completamente em seu lugar, mas também no país de origem dos ancestrais, do qual está separado por gerações demais para se sentir nativo.
Ouidah, através do After Vodundays, oferece algo que nenhum curso, nenhum livro, nenhuma terapia pode substituir: uma experiência física, sensorial e relacional da fonte. Não uma reconstituição, a tradição viva, transmitida por aqueles que são seus guardiões legítimos. A diferença é absoluta.
12 encontros que mais ninguém pode organizar
O que distingue o After Vodundays de tudo o que existe no mercado do turismo cultural africano é o acesso. Não o acesso a locais, o acesso a pessoas. Guardiões da tradição que não abrem sua porta para qualquer um.
Em média, cada edição do After Vodundays organiza 12 encontros íntimos com guardiões da tradição, Hounons, Bokonons e Vodunsi. Esses encontros não acontecem em grupos de 50. Acontecem em círculo restrito, num quadro de respeito e reciprocidade, não de espetáculo.
A ONG Wa Afriki construiu essas relações ao longo de mais de uma década. Elas repousam sobre a confiança, uma confiança que DAAGBO HOUNON HOUNA I, Pontífice Supremo do Vodun, ajudou a estabelecer. Nenhuma agência de viagens, nenhum operador turístico tem acesso a essa rede. Ela não se compra. Ela se conquista com anos de presença e comprometimento.
Eles voltam. Essa é a melhor prova.
O que distingue o After Vodundays não é uma taxa de satisfação exibida ao final da estadia. É que os participantes voltam, para a edição seguinte, ou através do programa Circuito 365, que oferece acesso a Ouidah o ano todo.
Quando pessoas vindas de seis continentes retornam deliberadamente a uma cidade do Benin, abrindo mão de outros destinos, dedicando tempo e orçamento, é porque algo aconteceu que vai além da viagem. Ouidah não é um destino que se marca numa lista. É um lugar ao qual se volta porque algo foi deixado lá, ou porque algo foi encontrado lá que ninguém sabia que estava procurando.
Seu Ouidah o espera. As vagas são limitadas, o acesso se constrói em pequenos grupos, nunca em massa.
O After Vodundays não pode ser substituído por outra viagem. É uma experiência de reconciliação identitária, ou não é nada.