Descobrir · Memória · Benin-Brasil

Uma mulher do povo mahi
fundou três templos voduns.

A história de Ludovina Pessoa e do Zogbodo Male Bogun Seja Unde, em Cachoeira: o primeiro terreiro jeje tombado como patrimônio nacional do Brasil.

1858

fundação do terreiro de Cachoeira

2011

tombamento como patrimônio nacional pelo IPHAN

3

templos fundados na linhagem de Ludovina Pessoa

O contexto

O recôncavo, terra jeje.

O recôncavo baiano, a região de plantações de cana-de-açúcar e de fumo que margeia a Baía de Todos os Santos, recebeu por dois séculos um fluxo constante de cativos do golfo do Benim. Cachoeira, um de seus centros, guarda até hoje uma marca religiosa rara: a de uma tradição jeje transmitida sem interrupção desde o século XIX, carregada por uma única linhagem, a de Ludovina Pessoa.

1858, Cachoeira

Ludovina Pessoa, mãe do jeje baiano.

Ludovina Pessoa, de origem mahi, um povo do Daomé, é a figura fundadora dessa linhagem. Segundo a tradição oral, transmitida de geração em geração nos terreiros jeje da Bahia, ela teria sido escolhida pelos próprios Voduns para fundar três templos: um consagrado a Dã, em Cachoeira, conhecido como Ceja Hundê ou terreiro do Ventura, e um consagrado a Hevioso, em Salvador, o Zoogodo Bogun Male Hundô. Relatamos isso como a tradição conta, sem apresentá-lo como um fato de registro civil.

É na filiação espiritual de Ludovina que sua filha de santo, Maria Luísa Gonsaga, também chamada Maria Ogorensi, funda em 1858, em Cachoeira, no bairro do Cabula, o terreiro Zogbodo Male Bogun Seja Unde. Consagrado ao Vodum Bessém, ele mantém até hoje a mesma filiação com o Terreiro do Bogum, em Salvador.

O reconhecimento

Primeiro terreiro jeje tombado como patrimônio nacional.

Em 2011, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) tomba o Zogbodo Male Bogun Seja Unde como patrimônio histórico nacional, sob a referência 1627, tombamento confirmado em 2014. É o primeiro terreiro de tradição jeje a receber esse reconhecimento oficial no Brasil, quase um século e meio após sua fundação, sobre um alicerce transmitido sem descontinuidade por uma única linhagem de mulheres.

Ponto de atenção

E a Irmandade da Boa Morte?

Cachoeira também é conhecida pela Irmandade da Boa Morte, uma das mais antigas confrarias afro-católicas do Brasil. É preciso esclarecer: diferente do Zogbodo Male Bogun Seja Unde, ela não é uma instituição exclusivamente jeje. As fontes a descrevem como uma aliança interétnica, reunindo originalmente mulheres de tradições jeje, ketu e nagô, e dirigida em seus primeiros anos por mulheres nagô. Uma história real e digna, mas distinta da de Ludovina Pessoa.

Fontes

"Terreiro Zogbodo Male Bogun Seja Unde", Wikipédia, consultado em 12 de setembro de 2026.

"Terreiro do Bogum", Wikipédia, consultado em 12 de setembro de 2026.

"Irmandade da Boa Morte", Wikipédia, consultado em 12 de setembro de 2026.

Emerson Giumbelli, "Recomposing the Nation", Vibrant: Virtual Brazilian Anthropology, 2014.

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Não prometemos teste de DNA nem prova genealógica. Abrimos uma porta: a de Ouidah, e a dos guardiões de tradição que ainda carregam essa memória.