Descobrir · Memória · Benin-Brasil

Vendida pelo próprio reino,
ela fundou um templo na Bahia.

A história de Nã Agontimé, rainha do Daomé deportada para o Brasil, e a hipótese que a liga à Casa das Minas, o templo Vodun mais antigo do Norte do Brasil.

1797

morte do rei Agonglo, início da crise de sucessão

1840s

fundação da Casa das Minas, escritura datada de 1847

2002

templo tombado como patrimônio nacional pelo IPHAN

A crise de Abomey

Uma rainha sacrificada por um trono.

Em 1797, o rei Agonglo, soberano do Daomé, morre. Abre-se então uma disputa de sucessão entre seus filhos. O príncipe Adandozan sobe ao trono e, para neutralizar uma rival na corte, vende como escrava uma das viúvas do rei falecido: Nã Agontimé, mãe do príncipe Ghézo, que reinaria mais tarde sobre o Daomé de 1818 a 1858.

Ela é deportada para o Brasil, sob um nome emprestado, como centenas de milhares de outros cativos do Golfo do Benin antes e depois dela.

São Luís do Maranhão

Maria Jesuína funda a Casa das Minas.

No Brasil, a cativa adota o nome de Maria Jesuína. Os registros a descrevem como uma nobre daomeana de tradição jeje. Na década de 1840, em São Luís, capital do Maranhão, ela funda um templo, a Casa das Minas, cuja escritura oficial data de 1847.

O templo perpetua o culto jeje do Daomé: liturgia em língua fon, divindades chamadas Voduns e não Orixás. É consagrado a Zomadonu, o Vodun da própria Maria Jesuína. É hoje o santuário fundador do Tambor de Mina, a tradição religiosa afro-brasileira do Norte, tombada como patrimônio nacional pelo IPHAN em 2002.

A hipótese de Pierre Verger

Maria Jesuína era a rainha Nã Agontimé?

Foi o etnólogo francês Pierre Verger, radicado na Bahia a partir de 1946 e iniciado babalaô no Benin em 1953 sob o nome de Fatumbi, quem formulou esta hipótese: Maria Jesuína, fundadora da Casa das Minas, seria a própria rainha Nã Agontimé, esposa de Agonglo e mãe de Ghézo.

É uma hipótese de pesquisador, apoiada no cruzamento da tradição oral com os arquivos, não um fato estabelecido por um registro civil. Dizemos assim, sem afirmar mais do que os próprios historiadores afirmam.

Uma memória ainda viva, dos dois lados.

Em Ouidah, a memória do Daomé e de suas rainhas continua sendo transmitida pela palavra dos guardiões da tradição. Em São Luís, o Tambor de Mina ainda se pratica hoje, em linha direta com a Casa das Minas. Duas margens, uma mesma fidelidade, nunca rompida pelo exílio.

Fontes

Pierre Verger, Flux et reflux de la traite des nègres entre le Golfe de Bénin et Bahia de Todos os Santos, du XVIIe au XIXe siècle, Mouton, 1966.

"A Casa das Minas de São Luís do Maranhão e a saga de Nã Agontimé", Revista Santuário, Scielo Brasil.

"Casa das Minas", Wikipédia, consultado em 12 de setembro de 2026.

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Não prometemos teste de DNA nem prova genealógica. Abrimos uma porta: a de Ouidah, e dos guardiões da tradição que ainda carregam essa memória.