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Em 1752, um navio passou
sessenta dias em Uidá.

A história da Galera Aleluia, um navio negreiro que partiu de Pernambuco rumo a Ajudá, e o que os arquivos portugueses dizem sobre o vínculo entre Recife e o Benim.

63.580

cativos da Costa da Mina desembarcados em Pernambuco, 1696-1760

1752

viagem documentada da Galera Aleluia até Ajudá

131

cativos comprados em Ajudá em 60 dias

O contexto

Um dos grandes portos de chegada.

Na década de 1720, o reino do Daomé conquista Aladá e depois Uidá, tornando-se a potência dominante naquilo que os portugueses chamavam de Costa da Mina, o atual golfo do Benim. O porto de Pernambuco, cuja praça comercial era Recife, recebeu uma parcela considerável desse tráfico: 63.580 cativos foram desembarcados ali vindos da Costa da Mina entre 1696 e 1760, segundo os registros alfandegários analisados pelos historiadores.

Não é uma estimativa literária: são direitos alfandegários cobrados navio por navio, conservados no Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa.

3 de setembro — 2 de novembro de 1752

Sessenta dias em Ajudá.

A Galera Aleluia, comandada por José de Freitas Sacoto, deixa Pernambuco rumo à Costa da Mina. Depois de uma primeira escala na costa, o navio ancora em Ajudá, nome português de Uidá (Ouidah) nos registros coloniais, de 3 de setembro a 2 de novembro de 1752. Em dois meses, a tripulação compra ali 131 cativos: 49 homens, 5 mulheres, 10 rapazes, 15 meninos, 31 mulheres jovens, 21 meninas.

A viagem completa traz 307 cativos de volta a Pernambuco. Esse nível de detalhe, raro para a época, vem de um documento único: o relatório de bordo conservado sob a cota AHU-São Tomé, Cx. 8, Doc. 100, datado de 24 de janeiro de 1752.

A marca religiosa

Mina-jeje, mina-nagô.

Ao chegar, os cativos da Costa da Mina eram classificados sob o rótulo genérico de "Mina", ele próprio dividido em duas grandes famílias: os mina-jeje, oriundos do Daomé, e os mina-nagô, de tradição iorubá. O Xangô do Recife, o culto afro-brasileiro de Pernambuco, reivindica fundadores das duas linhagens: nagôs de Oyó, Ketu e Égba, mas também jejes, sobretudo mahis e daomeanos.

É preciso dizê-lo com exatidão: o Xangô do Recife não é uma sobrevivência direta do Vodum, como a Casa das Minas em São Luís. É uma tradição de predominância nagô, na qual o componente jeje vindo do Daomé é documentado, porém minoritário.

Ponto de atenção

E o Xambá?

O terreiro Xambá, em Olinda, hoje o culto afro-pernambucano mais visível, não se liga ao Benim, apesar da semelhança do nome. O povo xambá vem da região dos montes Adamawa, entre a atual Nigéria e os Camarões, a milhares de quilômetros do Daomé. Sua presença em Recife data apenas dos anos 1920, trazida por um migrante vindo do Estado de Alagoas. Uma história real e digna, mas distinta da de Uidá.

Fontes

Suely Cordeiro de Almeida, "Rotas Atlânticas: o comércio de escravos entre Pernambuco e a Costa da Mina (c.1724-c.1752)", História (São Paulo), vol. 37, 2018.

Arquivo Histórico Ultramarino, AHU-São Tomé, Cx. 8, Doc. 100, 24 de janeiro de 1752.

"Costa da Mina", Wikipédia, consultado em 12 de setembro de 2026.

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Le Retour começa com uma conversa.

Não prometemos teste de DNA nem prova genealógica. Abrimos uma porta: a de Ouidah, e a dos guardiões de tradição que ainda carregam essa memória.