Descobrir · Memória · Benin-Brasil

No bairro da Saúde,
uma mulher de Allada fundou um templo.

A história de Guaiaku Rosena e do Asé Podabá-Jeje, a primeira casa fon do Rio de Janeiro — a exceção documentada numa cidade cuja memória da escravidão permanece majoritariamente angolana e congolesa.

1864

chegada ao Rio de Guaiaku Rosena, natural de Allada, no Benim

Saúde

bairro onde ela funda o Asé Podabá-Jeje, coração da Pequena África

3

gerações de guardiãs que transmitiram esse axé jeje

O contexto

Uma cidade que vem sobretudo de outro lugar.

O Cais do Valongo, tombado como patrimônio mundial pela UNESCO em 2017, recebeu entre 500 mil e um milhão de cativos africanos entre 1811 e 1831: o maior ponto de desembarque da diáspora africana no mundo. Mas essa memória é majoritariamente centro-africana. As escavações arqueológicas realizadas no local revelaram amuletos e objetos de culto originários do Congo, de Angola e de Moçambique. Na grande narrativa do Rio, o Benim ocupa apenas um lugar menor.

1864, Rio de Janeiro

Guaiaku Rosena, a exceção da Saúde.

É nesse cenário que se inscreve uma história diferente. Guaiaku Rosena, uma africana natural de Allada, um dos reinos fundadores do Daomé, hoje o Benim, e origem do nome "Rada" carregado pelo Vodu haitiano, chega ao Brasil em 1864. Ela se instala no Rio de Janeiro, no bairro da Saúde, no coração do que se tornaria a Pequena África, a poucas ruas do próprio Cais do Valongo. Ali funda um terreiro de tradição jeje, o Asé Podabá-Jeje, conhecido hoje como Kpodabá.

O historiador Rodrigo Pereira relata esse fato, apoiado no depoimento direto de uma descendente espiritual de Guaiaku Rosena, Mejitó Helena de Dan, recolhido num trabalho de mapeamento dos terreiros do Rio. Ela ali declara: "O nosso axé aqui, no Rio, especialmente o da minha casa, é o Jeje original, oriundo da África, mas não tem descendência da Bahia. É Jeje do Rio de Janeiro mesmo." Segundo a memória transmitida pela comunidade, a casa passa depois para a filha de Guaiaku Rosena, e então para uma terceira guardiã, antes de se ramificar em várias casas pelo Grande Rio.

Ponto de atenção

E o Cais do Valongo?

É preciso dizê-lo com o mesmo rigor de todo este acervo: o monumento mais célebre da memória da escravidão no Brasil não conta, no terreno, uma história beninense. O Cais do Valongo funcionou num período em que o tráfico para o Rio era dominado por Angola e pelo Congo. A história de Guaiaku Rosena não apaga essa realidade: ela é a exceção documentada, não a regra.

Fontes

Rodrigo Pereira, "Por uma outra diáspora: formação histórica e dispersão dos terreiros de candomblé no Grande Rio", Encontro Regional de História, ANPUH-RJ, 2014.

"Cais do Valongo", IPHAN / UNESCO, consultado em 12 de setembro de 2026.

"Pequena África", Wikipédia, consultado em 12 de setembro de 2026.

Essa história ressoa com a sua?
Le Retour começa com uma conversa.

Não prometemos teste de DNA nem prova genealógica. Abrimos uma porta: a de Ouidah, e a dos guardiões de tradição que ainda carregam essa memória.